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Resenha “Inverno da Luz Vermelha”, por Farley Matos



Com o texto original de Adam Rapp, o espetáculo recebeu algumas adaptações “brasileiras” por parte dos tradutores. A história se passa no bairro da Luz Vermelha (que dá nome à peça), em Amsterdã/Holanda; e, um ano depois, no Brasil.

Vale comentar um pouco sobre o cenário. Nas duas “fases” da história, ela se passa entre “4 paredes” – primeiro em um quarto de hotel, e depois em um pequeno apartamento – , com quatro “pilares” demarcando o espaço onde ocorrem as principais ações do espetáculo (muito legal!). Como ponto negativo pode-se citar a utilização excessiva de objetos para caracterizar o ambiente, alguns deles sem utilidade para a cena em si; e também a longa mudança de cenário entre as duas fases do conto, que pode ter deixado a plateia cansada.

Em contrapartida, a diretora Monique Gardenberg se utiliza muito bem dos elementos cênicos para trabalhar a ideia de quarta parede¹, e até um pouco a de foco². A utilização da quarta parede cai muito bem, mesmo, à montagem, justificando as vezes em que os atores ficam de costas para a plateia – o que, neste caso, não constitui uma gafe.

Quanto ao desenrolar do espetáculo, é com pesar que digo que o texto é um pouco repetitivo. Além disso, é difícil saber se assistimos a uma história cômica ou a um drama. Ok; pode-se ter uma montagem que mescle os dois, certamente. Mas o fato é que no início do conto os atores investem muito no humor, contagiando o público, e nos momentos em que se sentia um tom mais dramático, pesado, na cena, a sintonia com a plateia não acontecia muito bem.

Mas, apesar disto, pode-se observar um excelente trabalho dos atores André Frateschi, Marjorie Estiano, Rafael Primot (foto), na construção de seus personagens; com destaque para o Rafael: os trejeitos e sintomas que ele emprestou a Matheus – seu personagem – mostram perfeitamente a personalidade deste: um homem medroso, tímido e ansioso. (trabalho incrível!)

Enfim, mesmo com seus pesares, o elenco e toda a equipe de “Inverno da Luz Vermelha” está de parabéns pelo trabalho. E é como diz um, tímido e medroso, escritor que conheci:

“As cortinas se abrem. Luzes acendem, luzes apagam. E no dia seguinte, começa tudo de novo.”

(Matheus – Inverno da Luz Vermelha)

 

Abraços.
Farley Matos.

 

1. quarta parede: termo cunhado por André Antoine para designar a parede imaginária que separa o palco da plateia. Constitui uma convenção do teatro naturalista, onde o ator representa ignorando a presença do público diante dele. (Dicionário de Teatro – Luiz Paulo Vasconcellos)

2. foco: ideia trabalhada quando tem-se duas ou mais “cenas” ocorrendo ao mesmo tempo, mas elas não fazem parte da mesma ação. Cada cena ocorre em um foco diferente, e é perfeitamente possível entender o que ocorre em todas elas.


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