Críticas

Resenha “IN-DRAMA – Intervenções, Interações, Invasões”, por José Geraldo Demezio

IN-DRAMA – Intervenções, Interações, Invasões.
Idealização: Chistiane Jatahy.
Um outro olhar sobre as peças de Nelson Rodrigues.
Obra em destaque: Os 7 gatinhos.
Direção: Dani Lima.

A Dani Lima se destaca no cenário cultural desde a época da Intrépida Trupe e mais atualmente com as pesquisas corporais que desenvolve junto à sua companhia de dança. Uma das características da sua companhia que mais me agrada é o fato de seus bailarinos terem corpos comuns, sem aquelas feições extremamente tonificadas, delineadas. Uns tem barriguinhas, outros são bem magrinhos; mas todos têm em comum uma coisa: são ótimos no que fazem.
A leitura que a Dani fez da obra Os 7 gatinhos, de Nelson Rodrigues, foi interessante em alguns momentos; quando eles, por exemplo, rolam pelo chão, se beijando e se encaminhando para o centro da cena tendo que passar pelo público. Outra coisa interessante foi a construção do sentido buscada pela diretora na obra original e que surge no trabalho por intermédio das ações físicas desenvolvidas pelos dançarinos em cima das rubricas propostas pelo autor e ditas, em áudio, por parte da equipe.
Não gostei do final, que até se revelou provocante, com todos os artistas em cena representando, cada um deles, as filhas; raspando partes de seus corpos, alguns até semi-nus, quem sabe tentando com isso remeter ao anjo pornográfico que o próprio Nelson já foi definido alguma vez. No geral, uma tentativa interessante.
O projeto criado pela Casa França-Brasil é de singular importância ao tentar manter viva a figura desse grande autor. Outros artistas da atualidade já apresentaram suas versões para outras obras. Que a intenção continue, pois não é sempre que se pode, de forma gratuita, acessar propostas de qualidade como essa. Parabéns à Dani.

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Resenha “Inverno da Luz Vermelha”, por Farley Matos



Com o texto original de Adam Rapp, o espetáculo recebeu algumas adaptações “brasileiras” por parte dos tradutores. A história se passa no bairro da Luz Vermelha (que dá nome à peça), em Amsterdã/Holanda; e, um ano depois, no Brasil.

Vale comentar um pouco sobre o cenário. Nas duas “fases” da história, ela se passa entre “4 paredes” – primeiro em um quarto de hotel, e depois em um pequeno apartamento – , com quatro “pilares” demarcando o espaço onde ocorrem as principais ações do espetáculo (muito legal!). Como ponto negativo pode-se citar a utilização excessiva de objetos para caracterizar o ambiente, alguns deles sem utilidade para a cena em si; e também a longa mudança de cenário entre as duas fases do conto, que pode ter deixado a plateia cansada.

Em contrapartida, a diretora Monique Gardenberg se utiliza muito bem dos elementos cênicos para trabalhar a ideia de quarta parede¹, e até um pouco a de foco². A utilização da quarta parede cai muito bem, mesmo, à montagem, justificando as vezes em que os atores ficam de costas para a plateia – o que, neste caso, não constitui uma gafe.

Quanto ao desenrolar do espetáculo, é com pesar que digo que o texto é um pouco repetitivo. Além disso, é difícil saber se assistimos a uma história cômica ou a um drama. Ok; pode-se ter uma montagem que mescle os dois, certamente. Mas o fato é que no início do conto os atores investem muito no humor, contagiando o público, e nos momentos em que se sentia um tom mais dramático, pesado, na cena, a sintonia com a plateia não acontecia muito bem.

Mas, apesar disto, pode-se observar um excelente trabalho dos atores André Frateschi, Marjorie Estiano, Rafael Primot (foto), na construção de seus personagens; com destaque para o Rafael: os trejeitos e sintomas que ele emprestou a Matheus – seu personagem – mostram perfeitamente a personalidade deste: um homem medroso, tímido e ansioso. (trabalho incrível!)

Enfim, mesmo com seus pesares, o elenco e toda a equipe de “Inverno da Luz Vermelha” está de parabéns pelo trabalho. E é como diz um, tímido e medroso, escritor que conheci:

“As cortinas se abrem. Luzes acendem, luzes apagam. E no dia seguinte, começa tudo de novo.”

(Matheus – Inverno da Luz Vermelha)

 

Abraços.
Farley Matos.

 

1. quarta parede: termo cunhado por André Antoine para designar a parede imaginária que separa o palco da plateia. Constitui uma convenção do teatro naturalista, onde o ator representa ignorando a presença do público diante dele. (Dicionário de Teatro – Luiz Paulo Vasconcellos)

2. foco: ideia trabalhada quando tem-se duas ou mais “cenas” ocorrendo ao mesmo tempo, mas elas não fazem parte da mesma ação. Cada cena ocorre em um foco diferente, e é perfeitamente possível entender o que ocorre em todas elas.

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Resenha crítica feita pelo aluno da Oficina de Iniciação Teatral, Farley Matos

Farley Matos, aluno do Curso de Iniciação ao Teatro, faz resenha crítica sobre espetáculo teatral apresentado no Rio de Janeiro

“R&J de Shakespeare: Juventude interrompida”

Escrito por Joe Calarco e traduzido para o português por Geraldo Carneiro, o espetáculo tinha tudo para ser clichê, por se tratar de um dos romances mais famosos da história do teatro. Mas o talento dos atores João Gabriel Vasconcellos, Rodrigo Pandolfo, Pablo Sanábio e Felipe Lima, aliado à criatividade e à competência do diretor João Fonseca, mostrou que sempre é possível surpreender o público.

A história se passa em um colégio cristão conservador, com diversas regras a serem seguidas, e nele, quatro amigos reúnem-se à noite para “brincar de teatro”. A peça mostra a noite em que eles resolvem encenar Romeu e Julieta.

Retratando de forma bem simples e concisa uma escola, o cenário oferece aos “alunos” todo o necessário para a dramatização do conto: lápis, canetas, réguas, livros, cadeiras, cada objeto ganha um novo sentido na brincadeira dos quatro. Mas não são apenas analogias óbvias, como, por exemplo, réguas que tornam-se espadas; algumas delas são extremamente ousadas e inteligentes, e assim mesmo são perfeitamente compreensíveis. Vale citar três exemplos: um esquadro torna-se uma máscara de baile; uma flauta passa a ser o frasco do veneno que mata Romeu; e, certamente a mais inteligente de todas, folhas de papel viram a parede e a porta do quarto de Julieta (jogada de mestre do diretor!).

Outro artifício usado de forma excepcional pelo elenco foi o figurino. Composto de um traje social vermelho, o uniforme do colégio transforma-se em vestidos, trajes de gala e aventais; tudo com uma credibilidade extremamente fácil de aceitar.

Durante o espetáculo, os quatro atores se revezam na interpretação dos personagens de R&J, e isto mostra a versatilidade e a extrema inserção dos artistas na peça: no decorrer da mesma eles entram e saem de personagens com uma facilidade incrível, e cada um dos personagens mostrados possuem uma característica marcante – como o virar de pescoço da ama de Julieta, e o andar suave da própria Julieta.

Vale destacar o excelente trabalho de Rodrigo Pandolfo e Pablo Sanábio. Este interpretou a ama de Julieta e o Frei, ambos com uma particularidade impressionante. Quanto ao Pandolfo, sem dúvidas ele se sobressaiu muito. Se ele já surpreendeu ao fazer o primo de Romeu de forma super contagiante, o faz ainda mais quando começou a encarnar a jovem Julieta: o andar e os movimentos suaves, o modo como tornava as feições de seu rosto delicadas, tudo, nos fazia acreditar piamente que se tratava de uma donzela.

Enfim, “R&J de Shakespeare: Juventude interrompida” mostra que muito pode sair do nada. Assistir a tão bom espetáculo foi uma honra. Muito bom ver um tempero de comédia em meio a uma tragédia renomada. Recomendo a todos. Vale a pena esperar por outra reestreia.

Abraços a todos.

Farley Matos.

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